sexta-feira, 18 de julho de 2014

Me casei, e agora?


Foram 12 meses de preparativos. Sapatos, agência de viagem, música do cortejo, as “lágrimas de alegria” feitas em corte a laser que ele quase não me deixou comprar. Mas eram tão lindas! Três últimos meses, correria apertada, lista de presentes, degustações, convites (explicando a ele porque fazer isso novamente, visto que o ‘save the date’ não serve para convidar). Não dava tempo pra nada. Respirávamos o grande dia. Ele foi guerreiro, suportando minhas crises de choro e ataques de nervos (vocês têm noção que o papel de seda nude dos doces não chegaria a tempo para a festa?). Eu também fui bem compreensiva ao concordar com aquela cor de terno. Ele ficaria muito mais lindo no chumbo do que no cinza-médio-noite, mas casamento é isso não é? Vamos treinando as divergências.

Na última semana, tentava convencer meu sistema imunológico que seria bacana eu comparecer sem um balão de oxigênio acoplado ao vestido, ao mesmo tempo em que degustava as unhas postiças vendidas a preço de córneas, para meu dia de princesa. Enquanto isso ele cortou o cabelo e foi comprar a gravata com um amigo. Com toda aquela despretensão irritante que os homens insistem ter.

Correu tudo bem. Corremos. Bebemos e sorrimos muito. Quando acordamos já era dia – ou quase noite do outro dia – ele com o sapato Armani dentro no copo de whisky e meu véu por algum acaso enfeitava o frigobar. 

Durante um tempo vivemos a ressaca da festa de casamento. Trocas de presentes, viagens, escolha das fotos para o álbum, dicas para as amigas noivas, novos porta-retratos, gente conhecendo o apê, marcações de postagens dos amigos a cada minuto com a nossa hashtag.

E de repente, somos só nós dois. Naquela sala imensa, em frente o delicioso sofá (presente dos tios dele), só ele e eu respirando fundo pela primeira vez. Sem compromissos urgentes, nem obrigações indecisas. Era nossa casa, grande e vazia de preparativos. O lustre já estava perfeitamente alinhado ao espelho da mesa de jantar. E olhando para o tapete macio onde sentávamos descalços, ele arremessou: “Valeu a pena?”

Solucei alto, passeando entre a angústia e o alívio, e só consegui deitar a cabeça naquele emaranhado de pelos - tão quentes e tão momentaneamente meus. Pensei na rotina, nos pratos sujos, na futura conta da internet, nos roncos, nos cafés da manhã, nos banhos, nas risadas no intervalo da novela, nos abraços vespertinos, no cheiro dele no travesseiro, naquele emaranhado de pelos... e tudo se repetiria, e de novo, e de novo. 

“Sim. Valeu.”



*texto feito para a Revista Noivos

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