terça-feira, 23 de junho de 2015

Retornos

É, sim. Eu sempre volto. Parece até que te ouço soletrar. V.o.l.t.o. Soberbamente, tipo mãe e seus 'eu te avisei' irritantes. E com a maior cara de pau do mundo, confirmo, voltei. Voltei confusa e cheia de certezas. A mesma mudada de sempre. Com nó na garganta ao sequer pensar em admitir as merdas.
Não fiz merdas. Sinto merdas. É amargo e seco, mas não o suficiente pra não deixar partículas. Fica uns pedacinhos de merda perto do nó.
Voltei e como toda boa sem-vergonha admito que só aqui me sinto inteira. Talvez tenha passado tanto tempo fora porque não precisava desse outro pedaço meu. Agora fez falta.
Agora preciso do resto de mim.
Nada grave. Nada além do ritmo humano. Questionamentos rasos pra Buk. Dúvidas, angústias, aquela conhecida necessidade da escuridão onde fiquei em parte.
Voltei por ela.
Voltei atrás de algo que desincruste aquelas merdinhas.
Sem saber até quando. De novo. Caminhoneira eu. Zero promessas. Só me sirva aquela dose de vida fria. Foi o que me fez voltar.
Me sirva tristeza até eu me encher de mim.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Me casei, e agora?


Foram 12 meses de preparativos. Sapatos, agência de viagem, música do cortejo, as “lágrimas de alegria” feitas em corte a laser que ele quase não me deixou comprar. Mas eram tão lindas! Três últimos meses, correria apertada, lista de presentes, degustações, convites (explicando a ele porque fazer isso novamente, visto que o ‘save the date’ não serve para convidar). Não dava tempo pra nada. Respirávamos o grande dia. Ele foi guerreiro, suportando minhas crises de choro e ataques de nervos (vocês têm noção que o papel de seda nude dos doces não chegaria a tempo para a festa?). Eu também fui bem compreensiva ao concordar com aquela cor de terno. Ele ficaria muito mais lindo no chumbo do que no cinza-médio-noite, mas casamento é isso não é? Vamos treinando as divergências.

Na última semana, tentava convencer meu sistema imunológico que seria bacana eu comparecer sem um balão de oxigênio acoplado ao vestido, ao mesmo tempo em que degustava as unhas postiças vendidas a preço de córneas, para meu dia de princesa. Enquanto isso ele cortou o cabelo e foi comprar a gravata com um amigo. Com toda aquela despretensão irritante que os homens insistem ter.

Correu tudo bem. Corremos. Bebemos e sorrimos muito. Quando acordamos já era dia – ou quase noite do outro dia – ele com o sapato Armani dentro no copo de whisky e meu véu por algum acaso enfeitava o frigobar. 

Durante um tempo vivemos a ressaca da festa de casamento. Trocas de presentes, viagens, escolha das fotos para o álbum, dicas para as amigas noivas, novos porta-retratos, gente conhecendo o apê, marcações de postagens dos amigos a cada minuto com a nossa hashtag.

E de repente, somos só nós dois. Naquela sala imensa, em frente o delicioso sofá (presente dos tios dele), só ele e eu respirando fundo pela primeira vez. Sem compromissos urgentes, nem obrigações indecisas. Era nossa casa, grande e vazia de preparativos. O lustre já estava perfeitamente alinhado ao espelho da mesa de jantar. E olhando para o tapete macio onde sentávamos descalços, ele arremessou: “Valeu a pena?”

Solucei alto, passeando entre a angústia e o alívio, e só consegui deitar a cabeça naquele emaranhado de pelos - tão quentes e tão momentaneamente meus. Pensei na rotina, nos pratos sujos, na futura conta da internet, nos roncos, nos cafés da manhã, nos banhos, nas risadas no intervalo da novela, nos abraços vespertinos, no cheiro dele no travesseiro, naquele emaranhado de pelos... e tudo se repetiria, e de novo, e de novo. 

“Sim. Valeu.”



*texto feito para a Revista Noivos

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Começo


Naquela noite gelada me dei conta do tamanho do amor que eu tinha por aquele cara. E do tamanho da encrenca que tinha me metido.
Madrugada, eu e os lençóis amassados, tamanha pressão dos meus dedos pela angústia de não conseguir negar. Eu tava ferrada. Absoluta e encantadoramente apaixonada por aquele moço dos cabelos macios.
O lance de curtição não alimentava mais. Eu queria ele pra mim. Mas essa bendita fase da pegação é muito complexa.
A gente tem certeza que o cerco fechou quando tudo é bonito. E nele tudo era. Um corpo onde todo centímetro foi cuidadosamente moldado pela beleza. Até o silêncio dele era bonito... a mudez dos olhos dele me olhando era embriagantemente linda.
E os dias passaram a ter poesia sem razão. O cheiro da poluição, a luz queimada do poste... o lirismo tomou conta até das bolhas dos pés machucados pelo sapato novo. Tudo bem cafona, mas doce e verdadeiro.
Ele colocou delicadas rimas nos meus dias. E eu, a mais individualista das almas, comecei a ver sentido em dividir o cobertor. Quando necessário, aliás. Porque nosso emaranhado de corpos aquecia o suficiente. E as noites geladas não petrificavam mais. Pelo menos, não nos finais de semana. Havia um acorde harmônico ali que era viciante.
De repente me peguei fazendo rima com os dias a espera do meu cobertor vivente. A cada segunda-feira. E de novo. Sempre da forma mais estúpida, poética e apaixonada possível.
Um brinde aos poetas estúpidos e apaixonados. Tô bem feliz com isso.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tirando a poeira

É como se aqui fosse uma folha velha. Um papel encardido e empoeirado que aos poucos se embeleza com a cor do tinteiro. Umas passadas firmes com a mão pra retirar o excesso de tempo e as pautas vão revelando um charme que só a experiência é capaz de dar. E quanto vivem as pautas da nossa vida.
E o tempo vivido me dá liberdade de fazer o que for com as letras, com a poeira, comigo. Posso dizer que o tempo me ensinou a sem-vergonhice que emagrece os quilos da responsabilidade. 
Quando se tem um pouco de poeira nas costas, meu caro, não se dá tanta importância a corretismos ou baixezas. A aspereza do pó faz qualquer traço de atitude sair mais leve. A gente já não marca as folhas como no colégio. Ficavam fundas do outro lado, lembra? Não, agora não... agora o punho desliza sujando um pouco do dorso que detalha as sutilezas, a simplicidade. O realismo dos momentos que também diminui a paciência com gente aparentemente limpa demais, que tudo ama, tudo critica, tudo se abstém. Gente escrota precisa de um pouco de pó da vida pra conviver em sociedade. 
Um pouco de poeira humaniza a história da gente. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ele

Ele que pesa meu peito
Me envolve em teu leito
Que tira meu sono
Ele que salga minha pele
Me marca, me impele
A desejar-lhe meu dono
Ele, sorriso de menino
Com o cabelo tão fino
Que pouco se mantém calado
É dele meu sorriso mais escandaloso
Meu olhar mais carinhoso
E o abraço apaixonado
Dele as palavras formam flores
A saliva traz tremores
Faz a música brotar
Ele que ri das orações
Que defende os corações
Me ensinou que é bom amar

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Promissória

É preciso explicar pra cabeça
Poema não põe comida na mesa
Não resolve equação
Nem coloca diploma na mão
Coração não come
Nem estuda... nem trabalha
Vai sempre por rumo
E tira a gente do prumo
Guarda a poesia no armário
Vai pra tua lida
O mundo é de quem se atreve
E barriga vazia nem promissória escreve

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um pouco de céu

E de repente eu aprendi a me conhecer. Me reconhecer. Decifrar sonhos antigos e descartar velhos gostos. Hoje eu cultuo a simplicidade dos momentos, palavras, pessoas... O valor maior é atribuído pela sensação de pequeno céu que alguns conseguem oferecer. E você me trouxe um pouco de céu. Depois do período tempestuoso, veio o cinza e enfim, as nuvem alvas. Mas o céu mesmo, isso foi você quem trouxe. Lindo, azul... hora enfeitado por pontos brilhantes que despencam vez em quando causando gargalhadas e pedidos; hora claro e quente, como se os olhos enxergassem o calor e levassem ao fundo da alma. E então a alma fica aquecida, com aquela impressão de eternidade doce que a gente sabe que um dia, na verdade, pode passar. Mas dane-se o que a gente sabe. Já banquei a sabida demais e nem sempre com boas pontuações. Talvez, retirando o casaco do orgulho eu possa me permitir errar... e aprender de novo. Nesse pedaço de céu eu aprendo mais depressa. Ou desaprendo, vai saber. Desaprendo a me cuidar, já que em tanto tempo fazendo isso só aconteceu tropeço. Acho que não sou uma boa mãe pra mim. Talvez deva ficar um pouco mais e aprender a ser cuidada. É só um pedaço de céu, mas cabe a gente. Cabem os delírios e algum carinho. De manhã tem café e trânsito. Mas no final do dia, tem um pouco do céu me esperando chegar... e é muito bom saber disso.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Avesso

Gosto de gente que me cala a boca por me fazer pensar. Que me faz ter dúvidas. Que me faça admitir um engano. Gosto de pessoas que me enfiam o orgulho pela garganta. Que me façam ver um mundo de ideias, e ideais, além dos meus. Do meu mundinho construído. Gosto de gente que destrói. Que vem pra arrebentar conceitos. Quebrar muros. Construir pontes. Eu gosto dessa gente que me acrescenta mesmo me diminuindo. Mesmo fazendo me enxergar pequena. Gosto desses. Desses que criam labirintos no pensar, que fazem confusão dos sentidos. Eu gosto dos que transgridem. E evoluem... Concordar com tudo é fácil, macio. As pernas tremem mesmo, quando somos desafiados. É quando o sangue ferve. Chega aquela pessoa que, em horas, faz repensar toda sua convicção de uma vida inteira. Que incomoda, atordoa. Comprime o estômago, seca a boca, intriga a cabeça. Dá raiva. Gente assim, irrita. Tira o controle. Faz (re)pensar... É dessa gente que eu gosto.

domingo, 22 de julho de 2012

Vícios e Verdades

Eu aqui ouvindo blues e pensando em você. Um blues melodioso-chatinho que atordoa um pouco mas de alguma forma me prende. E não desligo o som. Ele embala os caminhos tortos do pensamento meu que é teu agora. Tem sido, aliás. O gosto do whisky é ruim então troquei por conhaque. Com leite, porque não tenho bebido muito. As pernas no encosto do sofá, a xícara na mão e a música chata tocando... lembrei do nosso começo. Tão forte, tão dilacerante. Um dia longe jorrava sangue do peito. Sangue que gritava saudade. E os encontros  transformavam dois em um. Era suor, peso, falta de ar, saliva, aceleração... Urgência... Uma refeição de dois famintos que não se davam ao trabalho de mastigar. Não tinham tempo. Forrava-se o estômago e com um menu sempre irresistível. Mas vinha a congestão. Sempre vinha a congestão.
O peito apertava de dor pela pressa. Tinha dor. Arrependimento. Tinha promessa de dieta. E nos riscamos da lista de consumo tantas vezes... E tantas vezes voltava a fome, vontade, desejo, saudade... a sabotagem da restrição. E nos consumíamos de novo. Tantas vezes.
E pela nossa saúde optamos pela distância. Passou o tempo e hoje não lembro mais o gosto da tentação. Foi um período com substâncias ilícitas. Vício ruim que a gente amava.
Essa música tocando notas que desenham tua fome me trouxe uma abstinência leve. Acho que uma curiosidade pra saber de você. O que tem feito ou com quem tem se tratado... O tempo fez com que o indispensável se tornasse excentricidade. E eu tenho ficado mais comum cada dia que passa.
Vou desligar o blues. Minha bebida acabou e é melhor parar por aqui. A idade nos dá certas ponderações, tenho tratado melhor meu corpo... minha alma e meu coração. Ao menos não doem mais, como antes. 
Parei com o exagero em devorar bobagens.

domingo, 15 de julho de 2012

Novo Velho Amor Simples

Chega perto, moço novo
Se acomode em meu lar
É simples, é velho, cansado
Mas tem ainda algo pra dar

Meu sorriso é de nervoso
Não esperava ser assim
Um tremor nunca sentido
E um bem querer que não tem fim

Eu escrevo mais finezas, moço
Mas teu sorriso me avecha
Tudo que sai são letras bobas
Da idade do arco e flecha

Vem, toca amor na viola
Que eu já preparei nosso leito
Fala umas bobagens pra rir
E deixa teu perfume em meu peito

Moço novo, não assuste
Que eu não quero anel no dedo
Pega a cuia, tira a bota 
Só vive o amor quem não tem medo



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um beijo, tristeza!

Pra mim, quem se esconde atrás de amarguras, dizendo "encobrir" felicidade por medo da inveja alheia, não confia no próprio taco. "Nossa, perdi tal oportunidade. Certeza que foi olho gordo." Certeza é, que isso foi permitido. A gente atrai o que emite e eu me sinto protegida demais pra qualquer coisa ruim me atingir.
Acho que falta mais peito pra assumir os verdadeiros desejos. Menos ativismo de sofá. Aquele lance do cuidar-da-própria-vida, sabe? É ótimo pra gastrite... e pra pele.
Se não gosto, não mimo. Se amo, eu AMO. E mostro. Porque ainda tem muita gente bacana no mundo que gosta de ver a felicidade dos outros. E o dia que eu sentir incômodo pela alegria (que seja em excesso) de outra pessoa, esse dia estarei doente. De alma.




segunda-feira, 4 de junho de 2012

Amor novo. Amor. Fim.


O cantar e o olhar. A esperança e a bonança.
O desejo e o beijo. A saudade e vontade. O novo e o medo.
O frio na barriga. As brigas. A mão no cabelo.
O pelo. O suor e o abraço. O laço.
As risadas e as recentes lembranças. A insegurança. A respiração.
O chão. A decepção...
As descobertas e o engano. A volta dos planos. O retorno da estrada.
A face molhada. O coração. A palpitação.
A cidade. A felicidade. A velocidade.
A curva. A chuva. A visão turva.
A caixa com flor. A dor. O fim de um amor.

terça-feira, 1 de maio de 2012

(mu)danças

Mudei o cabelo, os bares, a cor do esmalte. Troquei o vinho por cerveja e o bistrô francês por queijo coalho. A fronha do travesseiro não é mais branca e a sapatilha tem sido meu máximo de sofisticação.
Desliguei a TV e o rádio, liguei a respiração. Passei a assistir meus sonhos e dar risada do chute na quina do móvel. Voltei a dançar. Valor hoje, é para a presença. Presença, a quem faz bem.
Tenho falado menos, trabalhado mais. Subi uns centímetros do vestido e desci outros da preocupação. Planejo e executo. O tapa do orgulho deixou de arder.
Troquei os amores e o jeito de amar. Troquei a pulseira. O local da viagem. Comprei cama nova.
Aprendi baixezas e elevação do espírito. Já sei dizer "wherever". O romantismo é só visita e a expectativa é isso, ex. 
A argila dos princípios secou. Alguns inclusive, quebraram. Mesmo andando em círculos as árvores cresceram, reformaram o asfalto. 
Notei que colo mesmo, só o tempo dá. O bumerangue volta, mas por um outro trajeto. A vida mudou, me mudou... inclusive ao me fazer entender que certas coisas são imutáveis.

Mesmo com a pele envelhecendo, o inesquecível tatua. 




domingo, 22 de abril de 2012

ON/OFF

A vida debocha da cara das suas peças. Ignorantes peças que acreditam estar no comando.
Burle os 'termos de uso': seja menos que brilhante no trabalho, falhe na educação dos filhos, ligue pro gato no dia seguinte... As regras existem para manter a ordem, a transgressão, para sairmos do comodismo. "Sem transgressão não há evolução". No entanto, não há transgressão sem retalhação... Talvez daqui um tempo, com a humanidade (ou nosso umbigo) mais acostumados com a ideia do novo, possamos colher algum fruto. Até lá, acostumemo-nos com a ansiedade puncionando a gastrite.
A condenação a um pensamento pobre, pequeno. Poucos estão dispostos a sair da caixa. 
Progresso... será? As mulheres se livraram do stigma de eternas donas de casa, do não direito ao voto e em contraponto conquistaram a "obrigação" de serem profissionais competentes, magras e opositoras da formação de família antes dos 30. Os homens, além de sempre atualizados, firmes e bem sucedidos, também precisam ser sensíveis e com alguns dotes domésticos. Ninguém pode fraquejar, porém, se acontecer, temos tarjas pretas e psicanalistas excelentes. As regras estão aí, expostas ou subliminarmente instaladas em "valores". E não é porque você não concorda com o novo semáforo que poderá ultrapassá-lo.
O que falta nas pessoas é sutileza. Perspecção dos detalhes da vida. Menos soldadinhos seguindo o comando. Falta questionamento. Falta respirar mais fundo. Falta mais "dane-se". Sentir mais e pensar menos.
Falar sem medo de chocar. A instalação do politicamente correto calou o mundo das grandes sacadas e então caminhamos nessa pseudo-liberdade enclausurada em ideais... e 'é muito ideal pra pouca ideia'.

Uma alienação confortável.

domingo, 1 de abril de 2012

Sobre a ilusão do "felizes-para-sempre"

Hoje me deparei com um texto que descrevia romantica e ironicamente o ato de dividir o mesmo teto com alguém. E a história continua mais velha que andar pra trás: quem tá fora quer entrar e quem tá dentro reclama. Casamento é como aquela piscina gelada onde seu amigo grita "pode vir, a água tá ótima". E a gente pula.
Morar com alguém é o máximo de intimidade que podemos ter. Vide a família: amamos nossos pais, mas vez ou outra deu vontade de meter o pé em tudo, não é? O que faz um ser de cabeça pensante achar que no casamento será diferente? Não importa se é com ou sem papel passado. Você mora com outra pessoa, bebê. Por mais moderninho que seja o casal, existe a necessidade de dar satisfações, existe louça pra lavar, encanamento vazando e lixo do dia anterior que não foi posto pra fora (e estava na sua vez).
Convivência e romantismo repelem-se. O casal fica tão próximo que ele sabe do pelo encravado da última depilação dela que, por sua vez, não se importa mais com o furo no pijama (na verdade é uma camiseta velha).
Não, não é romântico ouvir o ronco dele. Discutir a temperatura do quarto. E NINGUÉM beija ao acordar antes de escovar os dentes. Pode parecer bobagem, mas bobagens ridículas dessas minam a graça de estar junto. 
Mas tudo isso é tão pequeno diante da amplitude que é dividir a vida com alguém... Se você se considera maduro suficiente para aguentar os pequenos trancos da vida a dois, avance uma casa. Avance para os grandes trancos.

Cumplicidade. Impossível ter uma vida decente a dois sem a parceria sincera do casal. Ok, individualidade sim, além de necessário é fundamental. Mas olhar juntos para o mesmo horizonte é vital pra saúde de um casamento. Caramba, você mora com a pessoa, se não tiver assuntos e planos em comum, que porcaria de vida é essa? Sexo? Desculpa criança, mas definitivamente, isso não é tudo... é um BOA parte, porém, uma parte que vai desmoronando a partir do momento que os demais laços vão se afrouxando... ou se apertando demais. Pois é, a posse também é um belo copo de cianureto aos pombinhos. 
Egoísmo, intolerância... eu poderia listar terabits de pedregulhos na estrada de um relacionamento. Pontos que insistimos não enxergar com a lente cor-de-rosa da ilusão. Mas não existe lente forte o suficiente. O tempo sempre a quebra e mostra um mundo real onde, se não formos práticos, sinceros e pacientes, o conto romântico termina em filme de guerra. Ou pior, em cinema mudo.
Está disposto a ficar 3 meses sozinho enquanto ela estiver no intercâmbio? E você, encara acordar às 3h da madrugada pra resolver problema da família dele? Casamento é hard core, meo bein. Se a cada birrinha você pirar, chutar o balde ou dormir na casa da mamis, desculpa, mas é melhor continuar no namoro. Continuar sentindo saudade, se arrumando pra quando ele chegar... e se contentar com a conchinha uma vez por semana (na verdade, depois do casamento acontece muito menos que isso).
Se eu pudesse dar um conselho a quem pretende encarar o desafio, eu diria que a chave de tudo é o companheirismo. O respeito pela vida daquele que divide a cama com você. Sem grandes dramas ou cobranças. Ser realista, preservando alguns encantos. É, um ciúme bobo ou um passeio inusitado de vez em quando ajudam, sabia? Caso contrário, vão virar estatística para a próxima pesquisa sobre divórcio. 
Acredito sim nas relações, desde que aja maturidade. E maturidade não é ser cara fechada levando tudo a ferro e fogo, ao contrário, é ter leveza para suportar os 'surtos', rir de si mesmo e do outro, é ter confiança... nos dois. Entender de uma vez por todas que, se alguém está ao seu lado é por vontade, não por obrigação. Ele(a) PODE escolher outra pessoa a qualquer momento, mas hoje, escolheu estar com você. E isso é muito, pode ter certeza.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Ponto... Ponto? Ponto.


Fim do texto. As palavras terminaram. Foi ponto final.
Depois de tantas reticências e interrogações, a exclamação grita “acabou!”.
Via-se a experiência entre aspas, não pertencente ao contexto. Como se a voz do Autor Divino delimitasse seu tempo. E o fez.
Fracionado muitas vezes pelo humor negro das vírgulas, chegou a confundir pela complexidade da estrutura. Faltou concordância. Algumas linhas vazias. Excesso de letras em outras. A condenação pela não linearidade. O erro.
Por vezes ansiou-se o início de um novo parágrafo. Mesmo que morto. Mesmo com o término das páginas. A falta de tinta. 
A mesma ânsia que provocava o delírio pelo vislumbre dos dois pontos, o signo da expectativa... O ponto final duplicava-se, transfigurava. Alonga, estica. Vira travessão. E cria-se um novo parágrafo... que lá se domestica. E lá fica... Esperando a voz da próxima frase.

E como é difícil ler o silêncio.


quarta-feira, 14 de março de 2012

O conto novo


Entra, deixa a chave na mesa.  Deixa os problemas lá fora. Se deixa.
O microondas vai apitar, abre o vinho pra mim?
É, é um conto novo. Do novo. Não adianta me desconcentrar.
É pelo pão do dia. Pelo salto fino. 
Deixa eu te contemplar, é só o que basta pra inspiração chegar.
Não sei... mais uma taça? Espera, faltam só alguns trechos.
Algumas páginas, eu acho. Me diz, pra que esse perfume?
Preciso continuar, é sobre o vislumbre de uma nova terra. Liga o ar, tá quente.
Sim, pode tentar. Mas já adianto que com as palavras não é fácil lidar.
O teu conto é mais profundo, profano. Não vende. 
Me escreve com os dedos na nuca... Espera, tenho que continuar.
Desenha os parágrafos nos lençóis, são brancos e novos. Toca, pode tocar. Assopra tuas rimas na minha cintura. 
Tá certo, ele pode esperar.
Mais tarde termino. O conto novo. Do novo. De nós.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A menina dos doces


Ela anda, ela dança, ela flerta. Adoçando com fumaça de praliné o cinza das cidades.

Forma melodia açucarada com as buzinas e britadeiras.
Ela flutua entre as paredes exalando seu perfume de balas de goma.
Sorri de cócegas dos raios de sol na cintura. Raios de mel contornando as preocupações.
Lambuza com calda de chocolate os atrasos e gritos.
Ela adoça a vida. Ela é doce. Ela é a menina dos doces.
Tem blueberry no olhar e sorriso de cereja fresca.
Carameliza os sorrisos. Embriaga com licor os desejos.

Recheia os dias com creme de avelã.
Sutil e delicada como algodão doce.

Esfria os ânimos com sorvete.
E massageia o imaginário com pedaços de doce de leite.
Faz chover flocos de arroz. Confeita com marshmallow os caminhos.
Necessária como calda vermelha na maçã do amor. 
Ela salva. Ela mata. 
Não enjoa... 
E vicia.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O que é amor pra você?



Há algum tempo atrás minha resposta seria cheia de floreio cor-de-rosa e uma carga extra de egoísmo. O excesso da necessidade de reciprocidade. Hoje, tenho a audácia de discordar de Martha Medeiros quando ela diz que ‘o sentimento mais bonito é o sentimento correspondido’. Não Martha. O amor pra ser bonito não precisa receber amor de volta. O verdadeiro, que faz parte do sublime, da entrega verdadeira. É o bem-querer sem expectativa. O amor livre.
Livre para amar... e só. Sem precisar de atenção, presença. Aquele amor que faz a gente dar a vida por quem não nos daria sequer um bom dia. Sim, existe. Eis o exemplo dos pais!
Existe amor mais perfeito entre os seres viventes que o amor de uma mãe ou pai para um filho? O amor incondicional. Para um pai ou uma mãe a felicidade e o bem estar de um filho estão acima de qualquer interesse. Entre vê-lo feliz na Austrália e tê-lo frustrado a seu lado, eles não tem dúvidas em que optar. Se um filho erra 300 vezes, os pais perdoam 301. Sabem que os filhos não os pertencem. Mas o amor que sentem, sim. 
Não deu certo na Austrália... mas os pais o recebem de volta. Numa discussão, de onde podem sair mágoas, os pais perdoam. Perdão é amor. Casos que pais e filhos rompem por anos e nunca, jamais deixam de amá-los. Criam com todo o afinco e num ato ímpar de generosidade, entregam o filho para viver com outra pessoa... desprendimento é amor. O melhor presente é sempre para ele. Querem vê-lo progredir, ensiná-lo a viver. A saudade é insignificante perto da alegria em ver a realização de um filho. E se somos capazes de amar dessa forma a um filho é porque temos capacidade plena para exercer esse sentimento com quem quer que seja.
Amor é isso, abnegação, resignação. É ter paciência, tolerância. Perdoar e receber de volta quantas vezes forem necessárias. Ser admirado pelas atitudes, a troca é consequência. Acho um pouco cruel essa segmentação do sentimento: amor de irmão, amor de amigo... amor é amor! É mais que querer estar junto, é querer a felicidade do outro, do nosso lado ou não. O desejo de possuir dá lugar à vontade de querer o bem. Que seja feliz, longe ou perto, mas que seja feliz. Isso é, de longe, o sentimento mais maravilhoso que eu conheço.
Acredito que seja um exercício que, como aquele da academia, no começo é bem difícil e dói um pouco. Mas depois de um tempo se torna tão natural que a gente sente falta quando não pratica. A abstenção da necessidade de posse é uma libertação. Desintoxica a alma e economiza rugas. No amor livre, assim como um pai pode esperar uma vida pelo filho, nós podemos esperar vidas pelo nosso amor, porque a gente ama, pura e simplesmente, como parte do cotidiano. E se um dia tivermos o privilégio de receber esse amor de volta, depois de tanto exercício, o coração estará bem mais saudável para acelerar o ritmo e bater mais depressa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Virando

Virou o ano... Alguns viraram a cabeça, outros viraram santos. Uns viraram o volante na contramão, outros viraram caminhantes de uma linha reta. Viraram a cintura, os olhos, viraram os quadris.
Alguns viraram o pescoço. E torceram. Outros enxergaram além do limitado campo da visão. Houve os que se viraram ao avesso expondo a carne sem pudor. Viraram loucos, viraram sãos. 
Alguns viraram a própria escuridão enquanto outros viraram o farol da massa.
Viraram voluntários.
Viraram doentes em suas certezas. Outros viraram a cura pelo aprender. Viraram ex-fumantes... articulistas econômicos... Viraram morada da solidão.
Viraram a alegria da vida de alguém.
Viraram devotos, viraram pagãos.
Uns viraram chatos. Uns, indispensáveis. Alguns viraram naturalistas e tem aqueles, ah, aqueles que sempre viram os sabe-tudo, achando-se capazes até de descrever as "viradas" de cada um.
Viraram o copo, o espelho, a esquina.
Virou amor pra vida inteira.
E você, o que virou?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

De roupa nova


Vestiu roupa nova. Um novo shampoo para os cabelos e um creme antirrugas maravilhoso. Novos dentes, novo sorriso. Era visivelmente mais bela. 
Vestiu-se de amor.  Haviam flores estampadas na pele que brilhava de saúde. Encobriu-se de perdão e pôde constatar que não existe maior alívio no mundo que encostar a cabeça no travesseiro sem mágoas ou rancores no coração. Era livre.
Estava vestida com a paz interior. A nova roupa de seu coração era realmente bonita. Tinha liberdade para sentir sem esperar nada em troca. A sinceridade tocou sua alma de forma tão profunda que não importava se outros acreditavam. Ela acreditava. Deus acreditava. E viraram amigos.
Nas muitas conversas diárias ela pedia pelos seus, por quem não era mais e por aqueles que não gostavam de sua forma de vestir. O desejo era roupa nova para todo mundo. 
As cores dos sapatos eram claras e a cada passo a calçada se iluminava. Eram sapatos especiais. Pequenas borboletas coloridas acompanhavam sua caminhada atraídas pelo perfume suave que emanava. Lembrava verbena. 
Chovia ainda, mas uma chuva morna que só faziam os pés deslizarem mais facilmente pelos caminhos. A turva tempestade havia passado. Alguns buracos escuros surgiam, mas os anjos – pequenas borboletas coloridas – evitavam que tropeçasse.
Não sabia o destino final, mas desejava continuar caminhando. Levar roupa nova e distribuir perfume pelos caminhos. De alguma forma, sentia que valeria a pena.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Só amor só

Decidira deixá-lo em paz. E amava-o nos trechos dos tempos vazios. Nas vielas escuras de seu peito onde o ar úmido cheirava o perfume das costas dele. Amava porque já não era possível deixar de ser. Tampouco deixar de ter. De ter o amor que era responsável pelos batimentos e pelos despertares. Amava com a serenidade de um mar manso, contendando-se com as alegrias das lembranças... Por mais um momento ela amava. Lendo o caderno de humor ou mastigando a bala de amendoim... amava nos intervalos. Nos sonhos e nas visões... Na fila do queijo e na loja de toalhas. As toalhas lembravam tanto ele. Desistira de querer não querer. Já fazia parte de seu hábito vital. Havia amor por toda parte, na escova de dentes. Quem pode viver sem uma escova de dentes? A dor havia sido incorporada, estava nas pálpebras e entre as cutículas.  Indissolúvel de sua alma, amava tanto que passou a se-lo. Amava porque ela era o próprio amor. O amor que a pele possuía e devorava, alimentando-se dos suspiros e dos desejos passivos. Impossível desprender. Ele nada sabia mas fizera do corpo dela sua morada inconsciente. Ela que decidira não mais importuná-lo com seus devaneios insistentes. Observava-o de longe. E amava-o de perto, bem perto, por entre os tecidos. Sem sacrifícios. As imagens estavam em suas artérias e o bem querer nos pulmões. Bastava que respirasse. Ela amava... Respirava... E o deixava em paz.

domingo, 30 de outubro de 2011

Amar? Fica pra próxima!

O mundo anda cada vez mais rápido. Anda não, corre. É informação na velocidade da luz. Formamos uma geração imediatista, onde todas as respostas podem ser encontradas no São Google em segundos.
Diante de tanta rapidez, percebo que as pessoas perderam a paciência para o amor. Nunca antes relacionamentos foram tão difíceis de serem mantidos. Por quê? Acostumamo-nos tanto com as instantaneidades que fica impossível parar alguns minutos para uma franca conversa.
Instalados nessa sociedade de idolatria ao ego, ao consumismo próprio e desenfreado, é difícil pensar em  faltar um dia da academia pra fazer um jantar especial àquela pessoa.
Jogos de conquista? Esquece, eles duram pouco mais que alguns minutos. Estamos sem tempo para charme, ligações inesperadas, flores... O lance agora é pular em cima do pescoço do ser desejado, sugar todo o prazer possível e ir embora. Para o próximo. Próximos. Muitos.
D.R. hoje é sinônimo de cafonice. Ele não quer sexo? Melhor partir pra outro. Não há tempo pra entender os problemas que ele tem passado. 
Estamos em uma era doente. O tumor da falta de tempo, quando na verdade preenchemos nossas vidas com coisas cada vez mais vazias. Exige-se muito então devoramos informações, aparelhos tecnológicos, MBAs e afins... Cadê tempo pra fazer carinho nos cabelos dela? Sem tablet ou smartphone nas mãos... Sem se importar com a quantidade de e-mails que estejam chegando...
Tempo pra cuidar da relação, como nós cuidamos da nossa aparência, da nossa posição profissional. Isso é cada dia mais raro, o que tem gerado uma massa de pessoas superficiais e solitárias. Não por vontade própria mas por se deixar envolver na teia de ocupações pseudo-inadiáveis e adiando sempre o que importa, ou quem importa.
Tempo pra cuidar do outro. Conhecer, entender, respeitar. Tudo isso envolve o amor. Ou será que as pessoas acham que o par perfeito é igualzinho, lindo e sem problemas? A individualidade tão pregada beira ao egoísmo: "Problemas seus, são seus. Dos meus eu cuido."
Cumplicidade. Formam-se muitos casais. Mas sem tempo para serem cúmplices.
Então nos veremos com sessenta anos, três casamentos fracassados, fotos de viagens incríveis e um carro bacana. Suspirando sempre uma certa melancolia de que faltou alguma coisa. É, faltou tempo. Faltou amor. Faltou inteligência para perceber que sem isso, o coração fica vazio. E a sensação mais sublime de saciedade que podemos ter é olhar um par de olhos brilhando na nossa frente durante o jantar...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O circo


Eu fiz umas boas maluquices pra chamar tua atenção. E quer saber? Por algum tempo você foi o mais empolgado da platéia. Fiz mágica pra poder te ver. Andei na corda bamba pra equilibrar as brigas. Eu fui trapezista pra te impressionar. E te deixar com frio na barriga. Adivinhei pensamentos seus nos meus números de mágica. E te arranquei sorrisos lindos quando me vesti de palhacinha. Nos intervalos você me apertava pela cintura atrás das coxias. E me levava algodão doce... Com o contorcionismo levei amor dos pés a cabeça. E com malabares eu fazia graça pra te mostrar habilidade. A habilidade de equilibrar o amor acima do ciúme na pontinha da cumplicidade. Eu sei, você sempre preferiu meus números sem maquiagem, sem salto, sem roupa... E também fui artista despida. Por você, eu era tudo. Eu fazia qualquer número. Você foi, por muito tempo, o MEU respeitável público... Mas você foi embora antes que o espetáculo acabasse. Não se importou com meu cansaço, nem com a minha dor nos pés. Eu chorei sim, porque a razão da minha arte havia partido e levado meu coração. Mas sou artista meu bem, preciso de brilho. Levanto picadeiro agora, para armar em outro terreno, mesmo sem coração, mesmo sem amor. Vou levar o que aprendi para onde exista um respeitável público que espere as luzes se apagarem. E que me aplauda de pé.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Enquanto você chora...


Enquanto você chora
Os frutos amadurecem
Os meninos brincam
As árvores crescem
O mundo gira
O Sol não desaparece
A fonte seca
As mãos estremecem

Enquanto você chora
A vida acontece
As músicas mudam
O corpo padece
Às pálpebras incham
O rosto ruboresce
A novela termina
E tantos te esquecem

Enquanto você chora
O coração adoece
O rio faz seu curso
Os jardins florescem
Os olhos embaçam
Você envelhece

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A dor e a saudade - quem ganha?


Eu acho mesmo que escrever é coisa de gente doida. Gente normal demais nunca tem muita coisa pra contar. Fico aqui imaginando sonhos onde os suspiros fazem frases, que às vezes se atropelam, mas no fim se entendem. E eu sei que sempre vou encontrar motivos pra escrever. Hoje é você, amanhã não sei... Penso que vai chegar o dia em que você não vai mais se ver nas minhas palavras. E eu acho isso tão triste... Mas a tristeza também me inspira então escrevo lamentos até esse maratona acabar. A maratona da dor e da saudade. Elas estão correndo em uma pista chamada vida, sabia? Na minha pista. Na minha vida. O percurso é difícil, mas elas são valentes. Largaram juntas, porém a dor lidera com folga a prova desde o início. Não gosto dela. É minha professora há anos e seus castigos machucam demais. Não quero que ela vença. A saudade embora me faça sofrer, é doce. As duas me ajudam escrever, mas a saudade consegue me trazer alguns nostálgicos sorrisos no rosto. Com a dor são só lágrimas. E essa vida já é difícil demais pra eu querer aprender através de tapas. Quero distância da dor. Prefiro a saudade. E tenho fé, sabe? Estou aqui, na linha de chegada torcendo. E escrevendo. Esperando a saudade superar a dor. E ganhar mais essa prova.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Dieta de você


Eu como você todos os dias. Mesmo você obstruindo toda a circulação de vida do meu corpo. Entupindo todas as artérias. O mesmo alimento que me mantém viva me envenena. Da garganta não sai mais voz. Das pernas não saem movimentos. No rosto não aparece mais sorriso. São os reflexos de uma alimentação desregrada. Mas eu preciso devorar você. Pra saciar meu vício. Pra me sentir viva. Cada pensamento é uma porçãozinha. Daquelas bem gordurosas e salgadas. Que levam ao êxtase momentâneo mas na madrugada seca a boca. E no dia seguinte seca a alma. Mas você continua sendo meu prato preferido. As fotos são um banquete de festa fina. E eu como feito uma selvagem temendo a abstinência. Cada novo texto é sobremesa daquelas com muita calda que eu ataco igual criança mal educada. Quero levar pedacinhos de você pra casa, como aquelas tias que escondem doces nas bolsas. Eu me alimento da sua imagem todos os dias. Mesmo sabendo que não é saudável. Prometo todas as segundas-feiras começar a dieta de você. Mas a obsessão pela tua presença é irresistível demais e nunca consigo ir além da hora do almoço. E me lambuzo com lembranças e promessas esquecidas. A congestão vem quase sempre, em seguida das flexões desesperadas pra te tirar de mim. Mas eu já comi. Mais uma vez não consigo evitar sentir teu gosto. Eu caio em tentação sempre.


domingo, 2 de outubro de 2011

Na contramão

Eu fiz sim, um texto bonitinho de auto-ajuda dizendo que somos as melhores e nada no mundo pode nos abalar. Mas tô sem saco pra isso. Sem paciência pra esse: querer-poder-conseguir. Nem sempre é assim. 
Eu escrevo pelo direito de ser eu, de me assumir. E escancarar todos os cacos e coisas feias que tem aqui dentro. Escrevo para colocar as interrogações de dentro pra fora. Como se as palavras ao saírem pudessem encontrar algum tipo de resposta.
É um alter-ego rebelde e livre que me deixa menos bonequinha. Faz vez ou outra aparecer um PORRA no meio do texto. Assumir a fraqueza. Os desejos...
Mostra a saudade, a tristeza, a raiva e todos os sentimentos que meninas fortes não podem ter. Mas eu tenho. E faço lindos textos de amor que não posso publicar pra não me mostrar apaixonada. E duros escritos de mágoa que me renderiam uns bons tarjas pretas. A gente não pode tudo.
No entanto, na viagem interna das letras me sinto despida frente a tantos, que por tamanha intimidade insistem na prepotência que me conhecem bem. Darlings, nem eu o sei.
Só sento no tapete mágico das palavras e vou pra longe, ensaiando uma viagem que por covardia ainda não me permiti. Mas que a escrita me permite, colocando aqui um aglomerado de frases e afirmando depois que não são minhas. São obras. Um trabalho.
Só por hoje não vou falar que sofrer não vale a pena. Que sorrir é o melhor remédio. E tantas outras lições coloridas tão esteticamente agradáveis mas empiricamente vazias.
As chaves das algemas eu tenho. O par de tênis também. Agora é só correr. Correr de quem eu era e ir atrás de quem eu sou. O esforço deve valer a pena. 


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Andanças


Tempestades enfrentei sem adoecer
As muitas topadas me fizeram crescer
Chorava nos cantos pra não mostrar fraqueza
Aquela a qual todos comentavam da beleza.
A delicada flor do deserto
Que cresceu sem nenhum amor por perto
E saiu dos templos em busca dos cabarés e das metrópoles
Com um pouco de álcool, bossa nova e rock
Abandonando princípios em troca de emoção
Ofertando a alma por um pedaço de pão
E rabiscando nas estrelas minha doce sina
Que o corpo de mulher e a cara de menina
Haviam pressentido desde o primeiro grito.
Ao Supremo Maior, sem delongas deixei escrito:
'Eu vim pro mundo pra encantar, meu Deus
Mas só sofrimento tive nos dias meus!'
E a Divindade rascunha, embaixo das minhas letras
Naquele céu escuro quase de cor preta:
'Menina, descalça faz teu giro, e reza todo amanhecer
Porque o que não falta na tua vida, é vida acontecer.'


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sim, sua culpa.

Depois de horas de lágrimas derramadas, com o rosto exausto se olhando no espelho, você percebe quem é o único responsável por cada uma de suas dores... Você. Suas escolhas.
Nos permitimos achar, julgar, acreditar... nos permitimos amar. E a cada permissão concedida assumimos a responsabilidade das consequências. Mesmo que inconscientemente.
Porém, com a nossa confortável mania de jogar a culpa no mundo, ora o destino é responsável, ora aquele cafajeste com quem você se meteu, ora sua chefe, que insiste em não valorizar seu trabalho. Já parou para pensar que você pode não ser tão bom quanto imagina?
É a maximização do ego se propagando aos montes. Sempre apontamos o erro a algum fator externo. Como se errar fosse cada vez mais proibido. E é.
Ela terminou. Mas não porque você é inseguro, ciumento ou infantil. Ela terminou porque o destino quis assim, e se um dia tiver que ser, vai acontecer. Ok, boa sorte.
O nosso problema é essa dependência do outro, até para atribuir enganos.
A vida vale por si só e as pessoas só podem ser bem vindas quando acrescentam, e não para tapar aquele buraco escuro onde ficam nossos medos.
Olhe-se novamente. É a essa imagem a quem você deve atribuir as consequências dos atos cometidos ou não. A sua felicidade... ou a sua dor. Se demos a permissão, sim, elas são indiscutivelmente nossas.
Não dá mais tempo de culpar sua mãe por não ter colocado mais chocolate no leite e isso ter feito de você um incompreendido na Terra. A vida adulta não tem tanto glamour como pensávamos. É legal poder ir e vir, no entanto a teia que envolve a liberdade é bem complexa. Não é fácil ser livre. Às vezes machuca.
Perceber onde e o porque de cada tropeço. Tomar as rédeas dos erros, dos acertos, da vida... Isso é maturidade. Isso é 'cuidar do jardim'*.
*Alusão ao texto "Borboletas" de Mário Quintana.