domingo, 7 de novembro de 2010

(in)sensatez

Ela era o eixo de tudo. Da família, dos amigos, do trabalho, da casa. Sempre centrada, era consultada por todos antes de qualquer decisão. Era o ombro amigo. A ouvinte sempre disposta a ajudar.
Tinha levado uma vida difícil. Diversas atribulações a fizeram crescer rápido demais. Pular etapas. Foi precoce em tudo. Aos 11 anos já havia vivenciado experiências que muitos aos 50 ainda desconhecem.
Era a aluna dedicada. A amiga leal. A filha exemplar. A irmã cuidadosa. A profissional competente. Obstinada, batalhadora. Inteligente e bem humorada. A mulher ideal? Não. Não era possível ser mulher sendo tantas ao mesmo tempo.
Paixões? Várias. Todas rápidas e intensas como o ritmo que sua vida levava. Não se permitia envolver. Não se permitia sofrer. A vida já havia sido dura demais, o que ela queria agora era a felicidade palpável, realista. Sonhos? Só em relação aos cursos e aos trabalhos que gostaria de realizar.
Um belo dia se depara com a oportunidade de um amor sincero. Um amor seguro. Era o príncipe e a princesa. O relacionamento perfeito.
Mas o conto de fadas se esvaiu. De repente não queria mais aquele mundo. Abriu mão de toda sua estabilidade para arriscar-se em vôos solos. Pela primeira vez ela tinha dúvidas, questionamentos.
Foi quando surgiu a libertação. Ou a loucura. O que a princípio tinha a candura de uma criança, em pouco tempo revelava-se absurdamente perturbador. Como nunca antes, ela estava sentindo. E sentia fortemente. Entregou-se sem pudor. A vida corria por suas veias freneticamente. Ela se permitiu envolver, e sofrer. Aquela que era a rainha do bom senso havia se transformado em uma garota inconsequente e passional. Esqueceu-se absolutamente de todas as regras. Ultrapassava todas as barreiras. Fora brutalmente criticada. A razão a dizia para parar. Mas seus ouvidos tinham sido fechados para qualquer decisão racional. Viver aquilo era tão extasiante que nada mais importava. Como alguém que jamais experimentou qualquer substância alucinógena e subitamente passou a fazer uso de doses cavalares da droga mais pesada. Viveu momentos nunca antes vividos. Sentiu arrepios nunca antes sentidos. Foi perigosamente fulminante. E deliciosamente intenso. Simplesmente não conseguia mais parar. Ela queria mais. Precisava de mais. Veio a dependência. A loucura. A obsessão... Em consequência, a rejeição. A abstinência. O sofrimento. A realidade.
Sim, a realidade volta ao mundo dessa mulher. O sonho acabou. Mas ainda restava um ínfimo lado utópico dessa experiência. Ela ainda queria. Sim, ela queria muito. No entanto de uma forma mais realista. Teria tomado de volta a sensatez? Provavelmente sim. Pelo menos até ela se permitir viver novamente...

Besos.

3 comentários:

  1. Ela? Apenas corajosa. Beijos amiga. Lindo!!

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  2. Fer que texto maravilhoso, ameiiiii.
    Como diria Clarice Lispector: Liberdade pra mim é poucoo que eu quero ainda não tem nome.
    Bjocas, ótima semana pra ti...

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  3. Ela fez acontecer, e isso é o importante. Agora se valeu a pena ou não, já é outra história.
    Tem gente que passa a vida toda se cobrando por um ecolha que fez por pura covardia.

    A vida é um jogo, e ninguém vai sair vivo dela, então vamos buscar a felicidade sempre!

    Bjim.

    @ChrisRibeiro

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