terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um passeio em um fim de tarde.

Resolvi sair. A angústia já não cabia nos 60 m² do meu apartamento. Precisava de ar.
Fui meio sem rumo, queria um lugar pra ficar só e pensar na vida. Lembrei de uma pracinha aqui perto.
Bermuda jeans desfiada, rasteirinha e óculos escuros. Nas mãos uma garrafa d'água, chave de casa, celular e um documento (é, sou meio paranóica com esse lance de andar com documento).
Acho que minha cara não devia estar das melhores. Os únicos três garotos que estavam na praça saíram rapidinho quando eu cheguei. Ótimo, eu tinha todo aquele espaço só pra mim.
Sentei com os pés cruzados no único banco em que fazia sombra, e por alguns instantes elevei meus pensamentos a Deus. Eu só conseguia pedir força. Era a única palavra que habitava minha mente.
As lágrimas foram inevitáveis, era como se eu estivesse deitada no colo de Deus recebendo acalanto. Sabe quando você está mal e alguém te abraça? Dá uma super vontade de chorar horrores né? Então, foi assim que eu me senti naquele banco.
Passados alguns minutos, quando os soluços já estavam mais brandos, eis que recebo companhia: uma família com várias crianças para fazer, acreditem se quiser, um piquenique na praça. E claro que o melhor lugar era exatamente em frente ao "meu" banco. As crianças me olhavam como se vissem um ET ("que será que essa tia louca tá fazendo com os pés em cima do banco, de cabeça baixa, mexendo no chaveiro de luzinha?"). Foram com direito a tudo, desde toalha quadriculada à cesta com frutas e biscoitos. Aquilo me incomodou um pouco. Não sei se pelos gritos das crianças (que sinceramente, não era o melhor momento pra eu escutar), ou se pelo contexto cênico daquela parafernália toda. Enfim, resolvi procurar outro canto pra ficar.
O sol estava morno e as ruas bem calmas. Nas poucas casas que se ouvia barulho, era alguma briga, alguma música, algum choro de criança ou algum "parabéns pra você". Pois é, deu até pra reparar nessas coisas. Descobri casas lindas, prédios que eu nem imaginava que existiam, muitas árvores, e flores... e beija-flores!
Logo encontrei outra praça. Mas nessa sou capaz de jurar que tinha mais gente do que nos três shoppings da cidade juntos! Poxa vida, não é possível se encontrar um lugar com privacidade nesse bairro?
Resolvi voltar pra casa. Esse passeio ao redor de 10 quarteirões durou cerca de duas horas. Eu andava e pensava. E andava mais um pouco, e pensava mais um pouco. Acredito ter entrado tão dentro de mim mesma que só percebi que estava na rua ao ouvir a buzina estridente de um motociclista. Sim, fui dar uma chapeuzinho vermelho e quase morro atropelada.
De repente eu senti fome. É, fome mesmo. Por alguns instantes fiquei decepcionada comigo. Como poderia sentir fome num momento tão poético? Todo aquele ar de cinema francês e meu estômago querendo comida?
Foi então que eu me lembrei que sou humana. Com todos os defeitos e necessidades que isso implica. Meu corpo não quer saber se estou recitando sonetos ou refletindo sobre o sentido da vida. Ele precisa de combustível para continuar e eu sou a fonte disso. Tenho que querer que ele continue e tratá-lo com o devido respeito.
Se eu ouvi o choro da criança ou a briga do casal, é porque, mesmo enquanto eu estava tendo uma crise existencial, a vida não pára. Infelizmente não temos a tecla "pause" e muito menos "slow motion". O mundo continua independente da nossa vontade. Não, a vida não é como nos filmes. O mocinho nem sempre é tão legal e provavelmente você se apaixonará pelo antagonista da trama. Ou pelo figurante mesmo.
Posso afirmar que, esse passeio hoje fez minha vida se tornar menos poética. Trouxe uma dose sutil de realismo. Ah, e uma leve dor nas pernas também...

Beijinhos.

3 comentários:

  1. Já fiz esse passeio, só que foi em um Domingo, é bom, lava a alma. É uma solidão necessária. Chega doer um pouco, mas é preciso. A parte da fome foi ótima. Hahaha só faltou se lambuzar de sorvete! Beijoss

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  2. Quase sempre nem é uma questão de espaço, mas sempre precisamos de espaço. As idéias não cabem na cabeça, e então sempre é bom sair pra espairecer, tentar colocar em ordem.
    No fundo a gente sempre tem todas às respostas, mas o medo nos faz questionar.

    Você é muito intensa, trenzim!
    Tem alma de artista.

    Bjim.

    @ChrisRibeiro

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  3. Temos que ter esse momentos é sempre inevitável, esse texto me fez lembrar uma frase que li uma vez: Não importa o quanto eu esteja sofrendo o mundo não vai parar por causa disso e realmente não para.
    Vivemos nossos momentos e sempre tem o toque de realismo e ai só nos resta encarar o mundo real, adorei o texto, bjocas...

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