domingo, 1 de maio de 2011

A escritora.

Sentou-se em sua penteadeira, com papel e lápis. Ia escrever. Não gostava de escrever à tinta pois era canhota e sua mão borrava toda página passando por cima dos escritos. Era tarde. Sempre esperava a cidade se deitar para mergulhar nos papéis. E em silêncio absoluto, escrevia mais um texto triste.
"Saudade é o que permanece, de quem não permanece. A dor da ausência é a mais dilacerante dor entre todas..."
A tristeza era constante em suas palavras. Gostava de escrever coisas tristes, embora fosse feliz. Uma moça bela, instruída, havia estudado na Capital. E tinha sempre como companhia seus textos. Era admirada por sua perspicácia e sutil delicadeza. As pessoas gostavam do que ela escrevia.
"Quando a saudade é ausente a dor é macia. Conformamo-nos por não poder mais sentir o cheiro.
A saudade que apunhala é a saudade presente. Aquela que podemos encontrar no meio da praça, ouvir a voz. Essa é a saudade que mata nosso coração aos poucos..."
As pessoas gostam de palavras tristes. Seus textos eram até publicados no jornal. Toda semana as donzelas da cidade suspiravam ao ler tais frases tão sofridas e ao mesmo tempo tão confortantes, sim, pelo fato de alguém entender o que muitos sentiam e poder transpor ao papel. Era admirável tamanha sensibilidade.
"Continuo respirando apenas para senti-lo. Pois a mim basta saber que vives para manter-me viva. Mesmo que nunca saibas que vivo para ver tua vida da janela, somente para isso."
Era moça feliz. Mas tinha alma triste. Talvez por isso suas palavras não conseguiam sorrir. Seu coração sorria quando ela escrevia, mas chorava quando ela sonhava. Era sonhadora como todas as outras moças. Gostava de ir à sorveteria aos domingos e de assistir aos mocinhos nas telas de cinema.
"Queria que fosses meu herói. Como nos filmes. Mas preferiste morrer para meu amor ao comprar aquela passagem de trem..."
Continuou a juntar as letras, em sua penteadeira, com lápis porque à tinta borrava todos os escritos... Suas histórias eram ditadas por seu coração doce e sua alma, triste. Mas era moça feliz, e as pessoas gostavam de suas palavras tristes.

4 comentários:

  1. Que lindo! Que perfeito! Esse texto é de uma sensibilidade sem tamanho...

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  2. Meu Deus ... vc tem muito jeito com as palavras ...elas simplesmente fluem ...lindo demais! Beijosssssssssss

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  3. Lindo! Liiiiindo! Lindoooo!

    Embora eu não seja canhota, tb borro a folha, e exatamente por isso sempre gostei mais do lápis!

    Beijo, lindeza.

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  4. Ai que lindoooo!! Ta mandando muito bem. Sou sua fã! belas palavras!! beijos beijos

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